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A economia tokenizada como alternativa de nova organização econômica

A “tokenização” refere-se ao processo de converter direitos sobre um ativo não digital em um formato digital, representado por tokens, de maneira que se elimine a questão do gasto duplo. Esse problema surge dado que, no mundo digital, muitas transações envolvem a troca de cópias de um arquivo e não o arquivo original, o que pode potencialmente levar a duplicações

A “tokenização” refere-se ao processo de converter direitos sobre um ativo não digital em um formato digital, representado por tokens, de maneira que se elimine a questão do gasto duplo. Esse problema surge dado que, no mundo digital, muitas transações envolvem a troca de cópias de um arquivo e não o arquivo original, o que pode potencialmente levar a duplicações. Por exemplo, ao enviar um e-mail ou uma imagem para alguém, você está, na realidade, compartilhando uma cópia desse item, não o original. Esse aspecto fundamental da digitalização tradicional cria uma vulnerabilidade de gasto duplo, em que um único ativo digital pode ser usado múltiplas vezes. 

Com a tecnologia de registros distribuídos, ou blockchain, soluciona esse problema, garantindo que as transações digitais sejam únicas e verificáveis, sem a necessidade de intermediários. Neste ecossistema, um token representa o direito único e intransferível sobre um ativo, facilitando transações diretas, seguras e sem fricções entre as partes. Utilizando blockchain, para representar e transferir ativos de forma digital, temos o potencial de revolucionar como fazemos negócios, investimos e até mesmo como interagimos com as entidades governamentais.

Um levantamento divulgado em 2022 pela Blockdata aponta que 44 das 100 maiores companhias do mundo com capital aberto usam o blockchain em processos internos, produtos e serviços. Além disso, a International Data Corporation (IDC) estima que companhias do mundo todo investirão US$ 19 bilhões na tecnologia em 2024. A disseminação de soluções em blockchain é inegável e reflete a necessidade dos players de explorar os potenciais benefícios da tecnologia para transformar suas infraestruturas tradicionais, adaptando-se ao novo mercado. O blockchain está no cerne dessas inovações e será parte fundamental para o desenvolvimento de negócios na nova economia digital. 

O mercado de ativos tokenizados chegará a valer US$ 4 trilhões até o fim de 2030. Segundo o relatório Money, Tokens and Games, do Citibank, esse valor pode ser ainda maior, atingindo US$ 5 trilhões, dependendo do grau de adoção de moedas digitais de bancos centrais (CBDCs, na sigla em inglês), como o Drex no Brasil. Logo, o mercado de tokenização será 80 vezes maior que o atual. Isso será possível graças à tecnologia de registros distribuídos ou, em inglês, distributed ledger technology (DLT): o blockchain. Com potencial para revolucionar a forma como conduzimos transações, estabelecemos confiança e moldamos o futuro das relações comerciais, essa rede é muito mais do que apenas o motor por trás das criptomoedas. Ela é a base para o que especialistas já apontam como uma nova era da economia digital, baseada em tokens. 

Assim, por meio da tokenização, podemos efetivar a transferência de propriedade de ativos reais de maneira segura e confiável no mundo digital, abrindo portas para inovações e novas formas de se fazer negócios. O blockchain introduz um mecanismo de consenso que exige a validação de várias partes para que uma transação seja registrada na rede. Valores mobiliários, commodities ou quaisquer outros ativos (financeiros ou não) podem ser convertidos em ativos digitais criptografados, registrados e transacionados em uma rede descentralizada. 

Com isso, surgem ainda os smart contracts ou contratos inteligentes: programas de computador autoexecutáveis que facilitam, verificam ou fazem cumprir a execução de acordos e transações entre partes. A principal característica desses programas é a capacidade de automatizar a execução de ações e regras específicas quando determinadas condições predefinidas são atendidas. Combinadas, essas tecnologias abrem as portas para a descentralização, a rastreabilidade e a programabilidade dos ativos. 

Para o mercado financeiro e de capitais, a inovação permite ganhos de eficiência e redução de custos. Isso tem estimulado especialmente o desenvolvimento de projetos de tokenização de valores mobiliários e títulos financeiros. Em abril de 2023, por exemplo, o MB Tokens, uma unidade de negócios do Mercado Bitcoin especializada em registros em blockchain e tokenização de ativos reais, lançou seu primeiro token atrelado ao mercado imobiliário. O projeto foi desenvolvido em parceria com a Braspark, empresa do setor com foco no ramo logístico. O token é baseado em um contrato de aluguel de um galpão logístico, ou seja, a representação digital do ativo relacionado ao setor. 

Mundo tokenizado 

Se uma grande variedade de ativos, direitos e relações econômicas e sociais passarem a ser representadas e registradas digitalmente por meio de tokens em uma infraestrutura blockchain, teremos uma economia tokenizada: tokens poderão representar a propriedade, valor ou acesso a algo específico. Eles poderão ser negociados de forma fracionada ou não, permitindo fácil divisibilidade, transferência e registro imutável de propriedade. 

Por isso, a tokenização tem o potencial de transformar fundamentalmente diversos aspectos da sociedade e da economia: estamos mais uma vez mexendo diretamente na forma como realizamos trocas. Bens físicos, como imóveis e obras de arte tokenizados são apenas uma parte de um todo maior e mais complexo, mas também com mais oportunidades. 

Um dos pioneiros nesse movimento foi o Walmart Canadá que, em 2022, passou a usar blockchain para otimizar a sua cadeia de suprimentos. A empresa foi uma das primeiras a usar a tecnologia de registros distribuídos para criar um sistema automatizado de gestão de faturas e pagamentos para 70 transportadoras de carga terceirizadas, de acordo com a Harvard Business School. O sistema reúne uma base de dados de todas as fases da cadeia, desde a oferta pública da empresa de transporte até a confirmação da entrega e o consentimento para o pagamento. Esses dados são coletados e atualizados em tempo real, permanecendo acessíveis somente para as partes que participam da transação. 

No mercado financeiro, uma das principais vantagens da tecnologia está na divisibilidade de ativos. Ao tokenizá-los, passa a ser possível torná-los mais acessíveis a um público mais amplo, além de proporcionar uma negociação mais eficiente e rápida. Ao tornar os investimentos mais globais, imediatos e fluídos, estamos diante de uma revolução que democratiza o acesso a ativos e recursos que anteriormente eram restritos. 

A tokenização também pode reduzir as fronteiras geográficas na aquisição de ativos. As transações podem ser realizadas globalmente, desde que haja interoperabilidade entre as redes blockchain, sem a necessidade de intermediários caros ou burocracias complexas. Isso é particularmente vantajoso para investidores internacionais que desejam acessar mercados estrangeiros. 

Fonte: Special Edition “Economia Tokenizada”, da MIT Technology Review Brasil – nov/23.